Dentro dos livros
Os destroços de um tempo que se foi e agora retorna, como implosão silenciosa, entre as páginas de "O óbvio ululante"
Domingo preguiçoso, de céu cinzento após muitos dias de sol, e resolvo pegar na estante o velho exemplar de O óbvio ululante. Voltar ao Nelson, para me alimentar com um pouco daquela sagacidade cínica que o caracterizava. Ao abrir o livro, a surpresa: havia entre suas páginas algumas coisas, que foram ao chão.
Um postal com a foto “O beijo do hotel De Ville”, do francês Robert Doisneau. O recibo da compra de uma armação de óculos. Um cartão da Tok Stok. Um pequeno pedaço de papel com anotações variadas.
Foi uma implosão silenciosa. A foto de Doisneau, que tanto amava e, saberia depois, não nasceu de um flagrante, mas de esmerada produção. O curso de mestrado escondido nos rabiscos de datas e horários, de prazos documentos necessários. Mestrado que eu nunca faria. O cartão da loja de móveis acenando para o desejo de me mudar da casa dos pais o quanto antes.
Minhas irmãs mais velhas sempre tiveram a mania de colocar coisas dentro dos livros. Mania que herdei. Guardavam sobretudo folhas de árvores, que, com o passar dos anos, ficavam secas e ainda mais bonitas. A beleza que a morte pode ter.
Eu preferia guardar papéis. Pela função simples de marcador de página, não de armadilha para uma surpresa no futuro. Como a que aconteceu há pouco, nesse súbito contraponto de perspectivas e resultados, de sobras e faltas.
Na folha de rosto de O óbvio ululante, há uma anotação feita a caneta: outubro de 1994. É costume meu registrar a data de compra dos livros. Os papéis com que me deparei, portanto, devem ser dessa época. E fizeram recordar: aos 22 anos de idade, eu gostava das fotos do Doisneau, queria estudar Antropologia e morar sozinho.
Sentimentos e vontades e sonhos que foram podados, aos poucos, na lâmina do cotidiano. No girar do moto-contínuo que mói, sem dó, aquilo que fomos um dia.
Não há nostalgia nessa observação. A andança pelo tempo pressupõe mesmo pequenas traições ao passado. Esquecimento. O espaço da lembrança não suporta a soma de todas as coisas. Como dizia o poeta Wally Salomão, “a memória é uma ilha de edição” — e a rima, neste caso, inevitável como o correr da ampulheta.



